
  Livro:  No se esqueam da Rosa


  Autora: Giselda Laporta Nicolelis


  Editora: Saraiva


  19 edio


  Ano: 2005


  Transcrito por: Anair Meirelles




  (p. 7)

  I

  O despertar

  As pessoas acordaram como sempre na cidade  beira-mar. Acenderam os fogareiros para a primeira refeio: arroz branco, picles, ch e uma sopa rala - a misoshiru
- feita com massa de soja. Muitas crianas ainda esto dormindo, alguns velhos tambm.  uma hora clida, de quase silncio, o sono da noite ainda repousa nos olhares
das pessoas que se preparam para o novo dia...
  De repente, a hecatombe! Do cu, desce uma coisa estranha, mortfera e cruel, que ningm compreende, mas que me poucos minutos arrasa a cidade... noventa por cento
dela. Numa rea de 12 quilmetros quadrados jazem 150.000 vtimas, das quais 80.000 mortas.  o dia 6 de agosto de 1945: o dia que no houve em Hiroshima!
  --  menina! - o mdico sorridente pe o beb sobre a barriga da me. So sete horas, do dia 13 de agosto de 1972, numa cidade do interior do Brasil. O dia nasceu
soberbo e ensolarado. H um cu azul, caprichado, como se comemorasse aquele nascimento, to esperado. Afinal, a primognita! O pai, mdico tambm, que assiste o
parto, comenta:

  (p. 8)

  -- Bonita como voc, Maria!
  Ao que a me responde orgulhosa?
  -- Mas tem seus olhos, Akio!
  -- Inevitvel. - Ri o pai, feliz. Trinta e trs anos, nascido no Japo, mas naturalizado brasileiro. Veio menino para o Brasil, aqui se formou.  um dos mdicos
mais influentes da cidade. Clnico geral  moda antiga, paciente e bondoso, tem entrada em todas as casas, convidado e recebido como amigo/parente. Casado com brasileira,
agora a alegria da primeira filha, delicada como uma rosa frgil, os olhos levemente puxados, denotando a paternidade.
  -- J escolheram o nome? - O obstetra termnina o trabalho, recolhendo a placenta que veio, inteira e suave, como deve ser.
  -- Hanako - diz o pai. - A filha da flor.
  -- Lindo nome, parabns! A garota parece forte. E vamos amament-la hein?
  -- Claro - responde Maria. - Vamos torn-la saudvel e feliz, como toda a criana deve ser.
  -- Por enquanto voc  apenas um tsubomi - diz o pai, tomando a filha nos braos.
  -- Tsubomi? - O obstetra sorri. - L vai ele comeando a ensinar japons para o beb, nem bem ele nasceu...
  -- Boto - traduz Maria. - Ela  apenas um boto. Mas se transformar numa rosa.

  (p. 10)

  -- Akai bara, uma rosa vermelha - murmura o pai, enlevado.
  -- Vamos, vamos! - o obstetra termina o servio. - Quero essa garota falando mesmo  o portugus.
  -- Ela falar ambos - promete Maria, recebendo o beb de volta -, porque faz parte de dois mundo. E assim poder entender os dois...
  Hanako foi a primeira filha. Depois vieram Yoshiko, a filha da bondade, e finalmente Mieko, a filha que merece ser bela. As trs lindas e frgeis, como botes
prontos a se transformarem em rosas.
  Foram crescendo sob a assistncia permanente do pai e o carinho da me, professora, que desde cedo lhes contava lindas histrias, que as meninas adoravam. A diferena
da idade entre elas era pequena: dois anos.
  Hanako, assim que completou seis anos, entrou para o pr-primrio e num vapt-vupt aprendeu a ler.
  Foi, ento, como um tapete mgico que se desdobrasse ante seus ps... sobre ele voaria, nas asas da imaginao, lendo tudo o que lhe casse nas mos... s vezes,
Hanako sumia, mas a me sabia sempre onde encontr-la. Em algum canto da casa, escondida, lendo, lendo, lendo... os olhos puxados e escuros brilhando de emoo.
  -- Me, que hiostria linda! Quando eu crescer, quero ser escritora. Para escrever histrias assim...
  -- Pode apostar nissso, querida! - Sorria a me. Tinha uma predileo oculta por aquela filha, algo inexplicvel. To delicada e frgil, o pai a definira muito
bem: um tsubomi que precisava ser tratado com infinito carinho, para desabrochar numa akai bara, a rosa vermelha da paixo.

  (p. 11)

  Akio, o filho do outono, era um homem bonito, alto e esguio, de traos suaves e voz carinhosa. Sua fama alcanou as cidades vizinhas, vindo gente de longe para
consult-lo. Alm da competncia, a gentileza, a afabilidade dos modos. Nunca, jamais, disse a um doente que estava desenganado. Inoti, a vida, era um bem precioso
demais. Ento, ele apelava para a esperana, eterno kibou que move o homem, seja em que lingua for. E se algum gemia dizendo um "ai", ele sorria e replicava? -
Na lngua dos meus pais, isso quer dizer amor!
  E quando Maria queria saber o que ensinava - atravs da lngua japonesa - s filhas, ele explicava?
  -- Ensino as verdadeiras coisas que movem o homem? a vida, a esperana, o amor...
  -- E a palavra guerra - provocava Maria.
  -- Guerra em japons termina com a palavra esperana, note bem: sensou  guerra, esperana  kibou. No existe nada mais sem esperana que uma guerra... e ns
japoneses sabemos bem disso!
  -- Isso ficou para trs, querido - Maria desconversava, arrependida de ter mexido em velhas recordaes. Afinal, ele era apenas um menino quando tudo acontecera...
cinco, seis anos? Mas podia imaginar o rosto aterrorizado, escondido atrs da me desesperada, tentando salvar a prpria vida e a do filho pequeno...
  -- H coisas inesquecveis, nem que se viva mil anos querida - disse Akio. - Perdi grande parte da famlia naqela manh fatdica. Sobramos eu e minha me, que
no resistiu muito ao choque emocional de ter ficado sozinha com um filho pequeno. Fui criado por parentes distantes, voc sabe. Tudo isso  muito triste, triste
demais para ser simplesmente esquecido!

  (p. 12)

  -- Pai, pai - Hanako entre correndo da sala, um sorriso lindo no rosto. Passei de ano!
  -- Meu amor! - Akio estende os braos, e a menina mergulha neles como num porto seguro.
  -- E a me, no abraa no? cobra Maria, fingindo cime.
  -- J, j, maezinha - diz a garota. -  o que o paizinho queria ser o primeiro a saber!

  Hanako ficava cada vez mais bela, inteligente e sequiosa de aprender. Era um pouco solitria e s vezes, na escola, encontravam-na como se estivesse meditando.
Havia uma luz profunda naqueles olhos escuros.
  -- To nova e pensando na vida? - brincava Celeste, a bibliotercria da escola. Num segundo, porm, a alegria retornava e a menina pedia?
  -- Tem livro novo, Celeste? V se me arruma um para eu levar para casa. Devolvo amanh sem falta!
  -- Voc no l, devora os livros, garota! - brincava a Celeste. - Nunca vi leitora to voraz...
  -- Qualquer dia eu devoro a biblioteca inteira, como um drago! - gritou a menina, brincalhona.
  -- Assim  que eu gosto, tristeza no.
  -- Eu no estava triste, Celeste.
  -- Estava sim, to longe, at parece que est apaixonada! A menina corou at a raiz dos cabelos:

  (p. 13)

  -- Besteira sua, imagine s..
  -- Besteira, hein? Esto dizendo que aquele loitinho sardento, da sua classe, est morrendo de amores por voc!
  -- O Lcio? Que nada! Ele  boboca...
  -- Com aqueles olhos azuis, aquelas covinhas? Olha que vocs fazem um par divino. Voc moreninha de olhos puxados e o Lcio... - Celeste at suspirou. Era uma
romntica incurvel.
  -- Tenho s doze anos...
  -- Est uma mocinha. E o amor no tem idade, no  mesmo? Eu, quando tinha nove anos, me apaixonei perdidamente por um vizinho mais velho, voc nem imagina. Quase
fiquei doente de amor...
  -- E ele? - perguntou Hanako, curiosa.
  -- Nem ligava para mim, menina. Acho que at hoje no descobriu a minha paixo por ele. A vida  assim mesmo...
  -- O Antenor que saiba - brincou a menina, referindo-se ao noivo de Celeste.

  Hanako, Yoshiko e MIeko eram muito populares na escola, conhecida como as trs nisseis. Amigas uma das outras, a menor agora com oito anos. A mais velha, tmida,
quieta e sensvel. A do meio, risonha e brincalhona. Porm a mais desinibida era a caula e a mais falante tambm. s vezes se reuniam no recreio, mas tinham turmas
separadas, porque Hanako cursava a sexta srie, Yoshiki estava na quarta, e Mieko na segunda.

  (p. 14)

  A me sempre as esperava na sada; de volta, ela tambm, da escola onde lecionava. s vezes, quando tinha tempo, Akio aparecia na porta da escola, e ento era
aquela festa. no s para as garotas, muito apegadas ao pai, a seu doce carinho, mas tambm para as mes que sempre filavam uma consulta gratuta. Afinal, mdico
 "utilidade pblica", brincava Akio, quando chegava em casa, depois de pelo menos trs consultas escolares.
  -- Est na poca de vacinar as meninas - lembrou Maria. - Com essa correria, parece brincadeira, quase me esqueo.

  (p. 15)

  -- Pois leve essas trs belezocas l no ocnsultrio que no cobro nada - disse o pai.
  -- E por que voc cobra dos outros - perguntou Mieko, muito sria.
  -- Ora, filhinha, porque preciso pagr nossas contas, a comida, o colgio, as roupas... Mame tambm cobra para dar aulas, seria bom se no precisasse cobrar, no
? Mas ser mdico  uma profisso como qualquer outra.
  -- Ento a gente leva vantagem, no  - sorriu a Yoshiko, mostrando os novos dentes que tinham nascido bem na frente, fechando a janalinha dos dentes de leite.
  -- Pai mdico  pra isso - concordou Hanako. - A Laura tem pai dentista; ento ela tem dentista de graa. A gente tem mdico de graa...
  -- s suas ordem, para sempre, mocinhas. - Akio despediu-se. quela hora, o consultrio devia estar cheio. A enfermeira, enquanto o doutor no voltva, dava a mesma
desculpa:
  -- Foi buscar as filhas na escola.
  -- Nunca vi um pai to
apaixonado pelas filhas - comentava uma paciente, senhora idosa que adorava o mdico.
  -- Acho que  por isso que ele  to bom...
  Em casa, Maria punha ordem no pedao:
  -- Para o banho, garotas!
  As trs comeavam a maior baguna no banheiro. Mieko, a mais irreverente, falava:
  -- Seria divertido mesmo, se a gente tomasse banho, tudo junto, numa tina, como era antes no Japo.

  (p. 16)

  -- Um da cada vez - corrigia Hanako.
  -- Pior pra quem ficasse por ltimo - gozava Yoshiko.
  -- Pois ia ser a Mieko, que  a mais nova - buliu Hanako. - Sorte dela a gente tomar banho de chuveiro...
  -- Me deixem esse banheiro em ordem, hein, garotas? - pediu a me, colocando o rosto pra dentro da porta. - Nada de molhadeira, como sempre...
  -- A me sempre pede a mesma coisa - disse Mieko
  -- E a gente bem que podia facilitar para ela... - falou Yoshiko, esperando a vez de entrar no chuveiro. Hanako estava demorando demais.
  -- Sai logo dessa gua, menina! Vai ficar sonhando como o Lcio, vai?

  (p. 17)

  A resposta foi o sabonete voando por cima delas. As garotas ram:
  -- Est apaixonada, est apaixonada!
  Hanako saiu vermelha do chuveiro, podia ser da gua quente, mas tambm podia ser de raiva. Enrolou-se na toalha:
  -- Vo tomar banho e me deixem sossegada. Agora todo o mundo cismou que estou apaixonada pelo Lcio!  s amizade, p!
  -- Amizade... - a Mieko fe um muxoxo. - E ele leva doce pra voc todo o dia. No outro dia levou uma flor, eu vi, na hora do recreio...
  -- Ih, quero ver s a cara do paixinho quando souber. - Riu Yoshiko. - A queridinha dele namorando...
  -- Garnato que ele vai ficar muito contente... - disse Hanako. - Afinal eu j estou mocinha!

  (p. 18)

  II

  Sol  pino

  Meu dirio:
  Meu nome  Hanako, tenho doze anos. Meu pai  japons, naturalizado brasileiro, mdico; ele se chamaAkio, que significa filho do outono. Mame  brasileira, professora,
se chama Maria. Somos trs irms? eu, Yoshiko, e Mieko. Somos muito diferentes. Eu sou tmida, gosto muito de ler, tenho meu mundo particular. Dizem que de vez em
quando eu entro na minha conhca. Yoshiko  alegre, brinca com todo o mundo., todos gostma dela. Agora, Mieko  a que fala mais. Papai diz que ela fala por todas
ns juntas. No sei o porqu, mas acho que sou a preferida de Akio. Gosto do nome dele, to delicado, gentil, como papai. H uma grande amizada entre ns. Como 
mesmo aquela palavra que a professora usou outro dia na aula de Comunicao Ah, j sei? empatia.  isso. H uma grande empatia entre ns. Somos assim to parecidos,
calados e sensveis, ele me chama sempre de amor. Ah, eu gosto tanto dele!

  (p. 19)

  Gosto tambm da mame, ela  bacana, muito amorosa com a gente, mas severa tambm. Mais severa que papai. Ele se derrete todo com as filhas, principalmente comigo.
Talvez porque tenha perdido quase toda a famlia naquela catstrofe em Hoiroshima, acho que todo mundo sabe disso. Dizem que foi miuto cedo, pela manh, l'apelas
sete horas. Quando todos estavam acordando... e, de repente, no havia mais cidade, no havia mais manh... e memso os que no morreram carregaram pela vida afora
as marcas da tragdia. Papai disse que todas as mulheres que estavam grvidas ou abortaram ou tiverem filhos deformados... No  terrvel? Sempre me pergunto por
que o homem  capaz de fazer tais coisas...
  Este ano, no dia seis de agosto de 1985, faro quarenta anos que primeira bomba. E dizem tambm que ela era incrivelmente fraca em relao s bombas de agora...
Eu me preocupo, principalmente quando leio que usinas nucleares esto sendo instaladas no Brasil, sem falar na soutras pelo mundo inteiro... E o que faremos ns,
jovens, o que faro os adultos e mesmo os velhos a respeito disso? Ficaremos simplesmente calados, esparando acontecer o pior? Assisti outro dia a um filme terrvel
na T.V. - dizem que nos Estados Unidos todos ficaram abalados com ele - chamado "O Dia Seguinte", que mostra o efeito de uma bomba nuclear ao explodir de repente...
como aconeceu com Hiroshima! E l, tanto o presidente dos Estados Unidos quanto os defensores da bomba diziam que isso era preciso para "acabar com a guerra", que
era um mal necessrio... Ser que realmente acreditou nisso algum dia?

  (p. 20)

  Sou muito jovem, tenho doze anos apenas, quase treze.... mas me preocupo. Admiro profundamente os pacifistas, como os da Inglaterra e da Frana, por exemplo, que
passam dias acampados em frente s usinas nucleares, em protesto. Deveria haver isso tambm no Brasil... Quem defender a vida?
  Gosto muito de escrever, leio muito tambm, devoro tantos livros... Acabei de ler hoje o Dirio de Anne Frank. Que livro maravilhoso! Terrvel e maravilhoso ao
mesmo tempo. Como os homens podem ser to maus? Como podem se destruir dessa maneira?
  Quero ser escritora. Outro dia aconteceu uma coisa incrvel. Amei papai mais ainda nesse dia. Imagine, meu dirio, que a professora de Comunicao e Expresso,
da sexta srie, pediu que a gente fizesse uma redao sobre o tema? "Brasil, pas do presente". Como eu adoro escrever, fuu para a casa e logo depois do jantar me
fechei no escritrio do Akio, e fiz,  mquina, uma redao "jia".
  Escrevo bem  mquina, tirei meu diploma esta no, mame fez questo. Diz que, se eu quero mesmo ser escritora, tenho de saber escrever  mquina.  como o msico,
que conhece bem o instrumento que ele toca, entende?
  Mas, como eu ia dizendo, fiz uma redao tima e levei, toda contente, para a Dona Lia, que ficou de devolver os trabalhos corrigidos no dia seguinte. Qual no
foi o meu espanto, quando ela, logo no comeo da aula, disse em voz alta:
  -- Que vergona, Hanako! Por ter pedido ajuda a seus pais, nota zero. E nunca mais me faa isso...

  (p. 21)

  Ah, meu dirio, as lgrimas rolaram pelo meu rosto, eu no conseguia parar de chorar. E ela insistia, enquanto toda a classe me gozava:
  -- No adianta chorar, Hanako, quem mandou fazer essa trapaa? Falta de respeito para com seus colegas e para comigo!
  Voltei furiosa para casa, mame at se assustou. Logo chegou o Akio para almoar. Eu gosto de chamar papai pelo nome, e deixa, sabe? - e quando ele me viu chorando
daquele jeito, quis saber o que tinha acontecido.
  Nunca vi o Akio to bravo na minha vida. Ele s disse:
  -- Pare de chorar, flor, que eu resolvo isso!
  Eu confio muito no Akio, ele nunca me enganou. Ento eu parei de chorar e fiz de conta que no tinha acontecido nada.  um jogo que papai me ensinou. Quando estou
muito, mas muito triste mesmo, fao de conta que no aconteceu nada e deixo para pensar no assunto no dia seguinte. Engraado, ma maioria das vezes, a gente descobre
que no valia a pena tanto sofrimento! Mame sempre diz: "no h tristeza que resista a um bom travesseiro...".
  No outro dia, meu dirio, voc nem imagina. Estava em plena aula da Dona Lia, quando de repente apareceu papai e a diretora da escola, e a irm Alcia. Esqueci
de contar, eu estudo num colgio de freiras, chamado So Jos. Ento a diretora foi dizendo:
  -- Dona Lia, aqui o meu querido amigo, Dr. Akio, disse que a filha dele, a Hanako, sofreu ontem uma grande injustia em classe. Que a menina escreve muito bem,
quer ser escritora, inclusive. Ento, para tirar esta dvida, vamos propor uma nova redao para ela, aqui mesmo, na classe, e vamos corrigir os trs. E, assim,
tiramos a limpo se foi feita injustia ou no...

  (p. 23)

  Dona Lia ficou at plida, mas no teve outra sada. Me chamou e disse.
  -- Hanako, escreva uma redao sobre o seguinte tema: Como o Brasil v a eleio de um presidente civil depois de vinte e um anos...
  Nem pisquei. Voltei para a minha carteira, peguei o caderno, a caneta - ah, que falta me faz a minha mquina de escrever! - larguei brasa.
  Os trs conversando l na frente, fazendo de conta que nem estavam a... e a turma toda me olhando. Ento a Dona Lia passou uma tarefa qualquer para a classe,
s para eles me darem tempo e no ficarem me secando, n? E eu escrevendo, pondo toda a minha alma naquele texto... ainda mais com um tema daqueles...
  Quando levantei, meio tremendo, e fui entregar a redao, estava at zonza. O Akio piscou para mim, como se dissesse: "T na hora da ona beber gua"...
  Dona Lia foi lendo, madre Alcia foi lendo, o papai foi lendo... um por um... e no rosto do Akiro, que foi o ltimo a ler, foi se espalhando um sorriso lindo,
at as covinhas dele apareceram. Eu lia seu pensamento:
  -- Minha flor, voc venceu!
  Ento, a diretora falou para a Dona Lia, que estava mais plida do que antes:
  -- Honestamente, que nota a senhora d para esta redao, feita em classe, e naturalmente sem a ajuda de ningum, quer dizer, somente de deus?

  (p. 24)

  -- Nota dez - disse Dona
Lia, e virando-se para mim, disse em voz embargada (fiquei at com pena dela), enquanto a classe ouvia em silncio:
  -- Desculpe, Hanako, me enganei. No podia imaginar que tinha um talento assim na minha classe!
  Levantei, dei um abrao na Dona Lia, ela me beijou, eu beijei ela. E o pai disse:
  -- Obrigado, Dona Lia, vim mesmo porque no gosto de injustia. Isso  muito importante para uma pessoa, no ? Quero que a minha filha saiba que pode defender
o seu direito, sempre...
  J amava voc, paizinho, mas amei muito mais depois desse dia. Afinal, voc ensinou para mim e para todos os meus colegas que a gente nunca deve ficar calada quando
se  vtima de injustia. Seja de quem for. Que a gente deve gritar, at quando puder, gritar... gritar... porque a verdade aparece, ela sempre aparece...
  Nossa, quantas pginas j preenchi, meu dirio! Mieko me deu voc de presente, dizendo:

  (p. 25)

  -- Pra voc contar a sua paixo pelo Lcio!
  Quer mesmo saber de uma coisa, dirio? Eu gosto do Lcio sim. Ele  muito bonito, gosto de meninos loiros, sardentos. Ele tem os olhos azuis, lindos de morrer...
Sou morena clara, de olhos negros, ento todo o mundo diz que a gente faz um casal superbonito. Ele veio de outra cidade, no ano passado, junto com o pai, que 
promotor e foi transferido para c. Ento, o Lcio entrou na minha escola, que  mista.
  Dizem que antigamente as escolas de freiras s tinham meninas, e as de padres, s meninos - devia ser chato  bea, n? Quem dis isso  a mame, que estudou em
escola de freiras. Nem podia namorar que elas ficavam loucas da vida.

  (p. 26)

  Nem deixavam se pintar, usar batom, blush, estas coisas todas, nem passar esmalte nas unhas, um sufoco. Agora melhorou muito. A me disse que, se no fosse assim,
nunca poria a gente em escola de freiras.... e o paixinho s rindo do jeito da mamae, porque, quando eles se conheceram, ele ficava na porta do colgio esperando
por ela, e as freiras s de butuca, olhando feito... ele firme, escondido atrs do muro.
  Akio tem 45 anos, mame 42. Ele at parece mais novo do que ela, porque vive sorrindo. Meu pai  muito bonito. Tem olhos puxados, como amndoas,  alto e magro.
Maezinha  morena de olhos verdes, meio gordinha, mais baixa do que alta, tem uma cor bonita, que chamam aqui de moreno-jambo. E papai sempre diz que boto em mim
o nome de Hanako porque quer dizer: a filha da flor. E a flor  a maezinha - bonito, no ? Eles se curtem muito e s vezes tambm brigam. Mame  mais exigente
e o Akio no quer que ela puxe muito pela gente. Vive dizendo:
  -- Deixe as meninas aproveitarem a infncia.
  -- Mas esto ficando mocinhas - diz mame, mas papai fica srio, e repete:
  -- Tem muito tempo... Deixa elas aproveitarem o restinho da infncia...
  Acho que ele diz isso porque sofreu muito na vida. Ele e a me escaparam da bomba, mas a me morreu logo, acho que de tristeza. Coitada da minha v.
  Papai teve de ir morar noutra cidade, porque Hiroshima era s escombros...  assim que se diz, dirio? E foi morar com um casal de tios da me dele, que depois
resolveram emigrar para o Brasil. Trouxeram o Akio, porque precisva ter criana ou jovem na famlia para entrar no Brasil, e eles no tinha filhos.

  (p. 27)

  Mas eram muito severos. O papai sofreu por falta de carinho, principalmente o da me, que ele lembra bem. Diz que era uma mulher to doce, bonita, olhos negros
e amendodados como os do Akio... O pai morreu na hora, porque estava indo para o trabalho, bem na rea dos 12 quilmetros que foram arrasados. Acho que meu av simplesmente
derreteu... E nem ficou sabendo por que, coitado! Ele se chamava Isamu, que significa viril.
  O paizinho e a vov, que se chamava Yuriko - a que veio do lrio -, estavam bem distantes, do outro lado da cidade. Papai diz que estavam fazendo ch, quando sentiram
a terra tremer, e se abraaram e ficaram ali, esperando no sei o qu... E o fogareiro tombou, e logo tudo pegou fogo. A Yuriko desesperada, tentou apagar aquele
incndio, defender a vida dela e a do Akio.... enquanto ouviam estrondos. Parecia o fim do mundo, os gritos e choros... e ficaram naquela luta at que surgiu algum,
como por milagre, no meio daquele fogaru todo. O pior  que no Japo as casas so feitas de um papel leve, de arroz, por causa dos terremotos, mas opaco, para afastar
a muminosidade e no se ver nada do lado de fora. Mesmo assim, a casa  clara o suficiente... e esse algum disse, o Akio lembra direitinho:
  -- No d para salvar nada. Venha Yuyriko, vamos sair da cidade...
  -- Sair da cidade, por
qu? Ainda perguntou Yuriko, abraada ao filho.

  (p. 28)

  -- Porque no h mais cidade - disse o homem. - Alguma coisa diablica caiu do cu... a cidade acabou ... morreram muitos... somos os sobreviventes... precisamos
sair enquanto  tempo...
  Acho que eles nem imaginavam, naquela hora, que era a ghensi-bakudan, a bomba atmica! Quando o pai conta isso, meu dirio, os olhos dele se enchem de lgrimas,
fica at com um tique nervoso no rosto. Ento mame diz:
  -- Passou, Akio, j passoui. Esquece meu amor...
  -- Nunca! - diz ele. - Um ms depois, ainda havia cheiro de carne queimada no ar... O ataque a Hiroshima no tem perdo!

  (p. 29)

  III

  O meio do dia

  -- Hanako, voc ainda no se vestiu para a escola?
  -- Ah, maezinha, estou to cansada...
  Maria olha a filha, estremece por dentro. Ela no est bem. De uns tempos para c emagreceu, tem o rosto abatido, se cansa por qualquer coisa. Coindidiu que Akio
est ausente, num congresso mdico. Mesmo antes de viajar, j dissera que ira fazer uns exames em Hanako, sentia que algo estava errado...
  Maria pe a mo na testa da garota, febre no tem. Assim que Akio volte, se preciso, iriam a So Paulo tirar as dvidas. Yoshiko e Mieko vo bem, coradas e fortes
como Hanako sempre fora apesar de que ela sentira - sentir  a palavra - sempre que filha mais velha era extremamente frgil, sensvel. Comentava como o marido,
que levava na brincadeira:
  -- Temores de me. Quem  o mdico aqui? Eu ou voc
  Meses depois, Maria, desolada, tenta pr os pensamentos em ordem. As filhas esto na escola, ela est sozinah em casa.

  (p. 30)

  Pediu licena do cargo de professora porque precisa cuidar de Hanako. Tudo to repentido! Fora mesmo? O que disseram os mdicos da capital, a junta pedida por
Akio? Que ele, estando em Hiroshima, na hora da exploso da bomba, estivera exposto  radioatividade, que, se no foi suficiente para mat-lo ou feri-lo, teve decidida
atuao na suas clulas reprodutoras. Assim, ele nada sofrera, aparentemente, mas podia transmitir o mal que as irradiaes causavam. Como se fosse, ele prprio,
uma bomba ambulante, seu sangue, suas clulas carregadas de radioatividade... Maria jamais se esquecer o olhar de Akio naquele instante! Como no pudera prever,
como se deixara enredar daquela forma. Um mdico, meu deus!
  -- O senhor jamais poderia ter tido filhos - disse o Dr. Malta, mdico famoso, especialista em gentica, titular dessa matria na maior universidade do pas.
  -- Mas s Hanako, doutor? - interveio Maria, espantada, e as outras?
  -- Felizmente no se manifestou nelas... ainda - continuou o mdico. - Mas quem garante que isso no possa acontecer, um dia? Ou talvez pule a gerao das duas
e surja num filhjo delas ou neto.
  -- Ento, isso no ter um fim... - gemeu Akio, mo sobre o rosto. Maria abraou ternamente o marido, tentando um consolo intil.
  -- Voc no poderia saber!
  -- Tinha de saber! Gritou Akio. Como no pensei nisso?  deus! To longe, do outro lado do mundo... Pensei enterrar todos os meus fantasmas vindo para o Brasil....
e nem conseguir esquecer. Agora, Hanako ! Por que no em mim?

  (p. 31)

  As lgrimas rolavam-lhe pelo rosto. Dr. Malta pediu:
  Deixem-me s com Akiro, por favor.
  Conversaram longo tempo. Maria, fora do soncultrio, era assistida pelos demais, mdicos, que lhe indivacam a melhor forma de tratamento. A garota deveria ter
vida normal, o quanto possvel. Aulas de natao ajudariam... Seu maior porblema residia na osteopatia, pois os ossos sofreriam uma degenerao progressiva. Em termos
leigos, iram se esfarelando... A menina diminiuria de tamanho, chegaria a um ponto que no andaria mais. O pulmo tambm seria afetado, e o corao cresceria muito.
Um quado clnico muito complexo... Isso tudo fazia parte da sndrome radioativa.
  Maria entendia o jargo mdico, acostumada s conversar de Akio. E parecia mais forte dos dois, porque l dentro, no consultrio, s deus sabe o que o Dr. Malta
fazia para dar nimo ao pai.
  Isso fora ha seis meses, talvez oito. Maria agora perde a noo do tempo facilmente, no quer pensar nele. Sabe que  curto, infinitamente pequeno. Ento, o importante
mesmo  tornar Hanako o mais feliz possvel. Acontece que ela  uma menina muito inteligente, que l muito, no se pode enganar uma criana inteligente como aquela...
  -- Me, eu vou morrer?
  Os olhos puxados de Hanako, sem uma lgrima, apenas a sombra da dvida. Responder o qu? Mentir, criar iluses, esperanas de que agora a medicina faz milagres?
Que h uma possibilidade de ida ao estrangeiro, que l fazem mais milagres ainda... no se transplantam coraes, fgados, crneas, rins?

  (p. 33)

  Mentir... para qu? Ser cruel tambm no resolve nada; dizer que aquela doce criana de doze anos, que paga por um crime que no cometeu, que resgata com a prpria
vida a insanidade de um homem que d uma ordem, numa tade escaldante, como quem chupa um sorvete... Qual a medida desse homem? Qual a medida dos homens que aceitam
tais ordens sem contestar sequer? Dizem que um dos pilotos do caa que levou a bomba foi ser frade trapista - a mais severa congregao que existe -, movido pelo
remorso. Mas dizem tambm que o outro, ainda hoje, afirma que faria a mesma coisa sem vacilar. Onde est a verdade, a conscincia? Teriam visto, este e outros homens,
os efeitos reais numa pessoa - numa criana inocente como Hakano, que, mesmo nascendo vinte e sete anos depois, ainda paga o mesmo preo dos demais? Talvez at mais
cruel, porque maisd distante, do outro lado do mundo, num pseudo paraiso tropical...
  E o que dizer ento daquel tsuboni, daquele boto de flor prestes a desabrochar, mas que seria impedido pela mo assassina que autorizou uma bomba atmica sobre
uma populao civil, inocente dos crimes dos seus mandatrios....
  -- No sei minha filha, no sei...
  -- E o Akio sabe? - insiste Hanako, os olhos amendoados nublados de pesada tristeza.

  (p. 34)

  -- Ele tambm no sabe, querida. - A me abraa ternamente a filha. - todos ns temos nosso tempo de vida. Quem pode saber qual  o seu?
  -- Mas me sinto to fraca, suo tanto, acho que...
  A me tapa-lhe suavemente os lbios:
  -- No ache nada, flor, apenas confie e tenha esperaa. Kibou: esperana, a palavra mgica. Seja em que idioma for. A menina sorri, triste:
  -- Esperana de qu, maezinha?
  -- De um milagre!
  -- Existem milagres, maezinha? a tenra precepo de Hanako captando/usufruindo a verdade, querando preencher a sua cota d eInoti: vida! Que sensou, a guerra que
acabou a quarenta anos, ainda tenta ceifar, a qualuer preo, em qualquer latitude...
  -- Os milagres existem, querida - diz a me e deixa escapar -, pois no reconstruram Hiroshima das lgrimas, do sangue, da solido? Agora  um porto movimentado...
  -- Eu sei, o pai me transmitiu a doena da bomba - diz a menina e a me estremece ao perceber que se entregou.
  -- Quem disse a voc?
  -- Akio me disse - continua a menina. - Outro dia encontrei ele chorando l no consultrio. Era de tardezinha, o ltimo cliente tinha ido embora. Eu fui at l...
  -- Sozinha, querida?
  -- Sozinha, maezinha. Queria saber, ele  medico, podia me dizer...

  (p. 35)

  -- E o que foi que ele disse? - Maria tateia, insegura.
  -- Ele me pediu perdo!
  -- O que voc respondeu a seu pai, querida?
  -- Que no tinha nada a perdoar. Que ele era um homem maravilhoso. Que no queria v-lo chorando nunca mais...
  -- Voc  um anjo, meu bem...
  -- Ah, sou no. - Sorri Hanako. - Os anjos no morrem...
  O que fazer numa situao dessas? Maria e Akio decidiram agir da forma mais natura possvel. Se era inevitvelm que poderiam fazer eles, simplesmente seres humanos?
Tudo que houvesse de recurso mdico seria colocado a disposio de Hanako, a que preo fosse. Isso era coisa certa. Mas ela no ficaria encastelada como triste/princesa/prisioneira
 do seu proprio mal. Viveria, tanto quanto a sade permitisse, sua doce vida de criana...
  Continuaria indo ao colgio todas as manhs, lendo seus livros favoritos, namorando o Lcio, o rapazinho sardento, que agora vinha muitas vezes visit-la, trazendo
discos, bombons, flores. Garoto sensvel e amoroso... S no fora possvel evitr que a cidade toda ficasse conhecendo o fato... cidad epequena, de interior, o que
se consegue esconder? E por que esconder? Pelo contrrio, era preciso que todos soubessem, ainda mais agora que o Brasil implantava tambm suas usinas nucleares,
to tranquilamente como quem vai a uma festa... .Indiferente a possveis catstrofes -  preciso colocar o pas entre os mais desenvolvidos do mundo, no ? Os pacifistas
que saiam s ruas, que faam seu carnaval particular.

  (p. 36)

  Eles pouco podem, tudo  resolvido nos altos escales, como foi a bomba de Hiroshima, quando um presidente de terno bem cuidado e unhas limadas assina uma ordem
que condena uma cidade interia... como um deus/pequenino/infantil, cheio de arrogncia e prepotncia, senor poderoso da vida e da morte!
  Sim, senhor presidente, nunca, no, senhor presidente, o senhor tem a verdade suprema, o senhor conhece todos os cdigos de tica, aperte o boto, senhor presidente,
acabe com a metade do mundo, a outra metade ainda chega, somos biles, no somos? Podemos nos dar ao luxo d euma guerrinha nucelar de vez em quando. Afinal, para
que so feitos os msseis, seno para costarem os espaps certeiros como punhais cravados no alvo; e se constroem msseis ainda mais poderosos que os radares no
conseguem detectar; yes, Mr. President, aperte o boto, now!

  (p. 37)

  Tsubomi, boto em flor. Que se transformaria em akai bara, a rosa vermelha. Bara: rosa, akai: vermelha. Primeiro a vermelha, depois a rosa. Rubra rosa de sngue,
da festa da vida!
  -- Me, estou to cansada, suo tanto...
  Tsubomi, boto em flor. Que nunca ser uma akai rosa, uma vermelha bara... rosa/plida de Hiroshima, comprometida, acuada, dentro da corola, extremado boto fanado
em sagndo radioativo...
  -- Hoje  aniversrio do Lcio, vamos comprar um presente para ele, filhinha?
  -- Ele quer o ltimo disco do Menudo...
  -- E voc, querida, o que quer, mame compra...
  -- Ah, eu queria ser um anjo. (Sempre a mesma afirmao).

  (p. 38)

  -- Por qu? (Ora por qu! Ento ela no sabe a resposta?)
  -- Porque os anjos no morrem nunca...
  -- Voc no acredita mais em milagres?
  -- Me, o que  um milagre?
  -- Ah, minha filha, milagre  Inoti, a vida. Toda a vida  um milagre. Enquanto houver vida, o milagre est presente, no ar, no cu, nas plantas, no sol, nos bichos,
nas pessoas...
  -- Quero um presente, sim. Quero uma boneca, uma ningyou... que seja parecida comigo...
  -- Ora, meu bem, onde vamos encontrar uma boneca mestia, de pai japons e me brasileira?
  -- Por a, vamos procurar, no se fazem bonecas com olhos de amndoa, maezinha?
  -- Voc est falando como seu pai...
  -- Akio? Olha, eu quero uma boneca parecida comigo...
  -- Por que tanta insistncia nisso, filha?
  -- Algum dia eu conto... se no acontecer o milagre.
  -- Ento vamos pedir juntas, com muita fora, que o milagre acontea!
  -- A senhora agora est falando como a madre Alcia. Ela disse qeu eu preciso rezer muito...
  -- No  preciso rezar, minha filha; basta falar com deus!

  (p. 39)

  IV

  O Entardecer

  Meu dirio:
  Volto a escrever em voc. Como a Anne Frank fazia com o dirio dela. Quando eu li o livro, no podia imaginar como  triste/penoso a gente saber que vai morrer...
A Anne ficou dois anos trancada naquele prdio, sem poder ver o sol ou sentir o vento batendo nos cabelos. Talvez eu seja mais feliz que ela, porque posso ir aonde
quiser, embora j no possa andar como antes. Fiz 13 anos e estou cada vez mais fraca, minhas pernas simplesmente no me obedecem. Fao ginstica, tenho massagista,
fiz natao durante algum tempo, mas isso j  coisa do passado. A osteopatia que tenho (esse  o nome cientfico da coisa), se agrava cada vez mais... Leio isso
nos olhos de Akio, que se desespera por sentir-se impotente. Um mdico - deve pensar ele -, mas o que pode fzer para salvar a filha desse mal incurvel? Quer dizer,
ningum sabe ao certo, acho que  um tipo de doena rara, que ainda no foi suficientemente estudada. Porque os efeitos a bomba demoram muito a aparecer, s vezes...
assim como no meu caso...

  (p. 40)

  E, pelo que ouvi e consegui entender, isso talvez possa se prolongar para sempre; mesmo que eu escapasse com vida e tivesse filhos, isso aconteceria com eles ou
com meus netos, ou filhos e netos das minhas irms... Isso  o pior! Qual e gerao que ser poupada, perdoada, dos erros do passado? E ningum sabe dizer ao certo!
Nem mesmo se existe possibilidade de cura no meu caso...
  Ainda quanto a Dirio de Anne Frank, notei que parece to maduro uma menina de 13 anos, como eu, escrevendo daquela maneira. Pelo menos no incio dele. Mas agora,
lendo o que escrevo no meu prprio dirio, vejo que a vida amadurece as pessoas mais rapidadmente do que seria normal. Como se pode ser simplesmente criana, vivendo
escondida, na expectativa de a qualquer momento as botas nazistas entrarem pela porta? Ou, como no meu caso, de definhar at morrer? No h infncia ou inocncia
que resistam a esse tipo de presso!
  O dirio de Anne Frank se chamava Kitthy - quero dar um nome tambm para voc, amigo. Mas, no sei por que prefiro que seja um nome de homem. Sinto em voc, como
em papai, uma grande fora. Ento, vai se chamar Isamu, que quer dizer viril - era o nome de vov, sabia? Gostaria tanto de ter conhecido meu av! Dizem que ele
era um homem muito bonito, alto e magro, delicado e gentil. O retrato vivo de Akio, ou vice-versa, no ? A raa japonesa  uma raa muito gentil. De poucas palavras,
muito riso, voz suave. Papai  assim, Akio  um verdadeiro amor. No h quem no goste dele, principalmente as clientes mais velhas, que dizem assim:

  (p. 41)

  -- J que tenho de ir ao mdico, que seja bonito e gentil!
  Mame se diverte com as velhinhas fanzocas do Akio. E diz:
  -- Olhe l, s as velhinhas, hien?
  E o Akio responde, rindo:
  -- Ora, meu bem, mdico no tem dirieto de ter tambm clientes bonitas e gentis?
  Viu como  papai, Isamu? Em, tudo ele acha uma forma de brincadeira. Mame diz que ele  uma eterna criana, que ainda no cresceu. Se for assim, graas a deus!
Amo tanto o meu pai! At nisso eu tenho empatia com a Anne.Ela tambem gostava muito do pai e no gostava muito da me. S que eu gosto da mame, mas h alguma coisa
diferente no Akio: essa suavidade oriental dele, o carinho. Ele me abraa como se estivesse abraando uma flor, to delicado...
  Adoro homens gentis. Fico assombrada quando vejo homens to grosseiros e malcriados com suas mulheres e filhos. At batendo neles. Outro dia, uma colega de classe
chegou com o rosto marcado de um tapa do pai. Isso me causa uma repulsa indescritvel. Acho que certas pessoas so piores que animais. E, quando volto para casa,
depois de uma cena deprimente dessas, e vejo o Akio comendo arroz com Hashi, aqueles pauzinhos que os japoneses usam nas refeies, falando baixinho, pedindo sempre
por favor, me d uma alegria louca, e tenho vontade de gritar:
  -- Obrigada, deus, por est pai que voc me deu!
  Por isso no d para ficar triste demais, entendeu Isamu? Tenho uma famlia maravilhosa, que me cobre de carinhos, no me falta nada... quer dizer, s a sade.
Mas isso no depende de mim, ou do Akio, ou de mame, ou de minhas irms. Isso foi apenas um terrvel acaso!

  (p. 42)

  Outra notcia boa: estou namorando firme com o Lcio. Ele  um amor, gentil e educado. Claro, se no preferia nem ter namorado. Quando me casar, quero um marido
como o Akio, gentil e bondoso... mas acho que no vou ter tempo, no  mesmo? Ento fao de conta.  to bom fazer de conta. Sabe, Isamu, o dirio de Anne  lindo,
nem  triste, tem passagens engraadas, porque ela sempre teve esperana de se salvar. Os nazistas entretam, de repente, no esconderijo deles e levaram todos. O
dirio ficou perdido entre papis velhos, Algum achou e entregou depois para o pai de Anne, quando ele, milagrosamente, voltou do campo de concentrao. Isso porque
ficou doente, foi levado para a enfermaria do campo e, enquanto isso, os aliados chegaram e a guerra acabou.... No  incrvel que justo o pai que ela tanto amava
pudesse resgatar aquele dirio mgico para o resto da humanidade?

  (p. 43)

  Por isso, tambm escrevo o meu; no vai ser, nem de longe, to importante quanto o Dirio de Anne Frank. No estamos em guerra, nem vou ser levada para um campo
nazista. Mas ser que no? No trago em mim, no meu sangue e ossos, na minha vida, a marca da guerra? no serei uma vtima igual a todas as vtimas, como Anne, da
violncia, do desrespeito  vida humana? E talvez pior, porque nasci tanto tempo depois, inocente, quando tudo parecia perdoado/resgatado; mas h coisas que no
tm perdo! no quero que o meu corao se encha de dio, o dio s destri. Mas  impossvel deixar de pensar como so injustos esses homens que comandam o mundo...
que mandam inocentes morrerem nos campos de guerra, quase meninos, deixando os coraes das mes mortos em vida... Que simplesmente olham mapas e apertam botes...
Para onde ser levada a humanidade?

  (p. 44)

  Construiro sempre armas cada vez piores, at que se apertem todos os botes e a Terra exploda inapelavelmente? Como num sopro? Gostaria que vidas como a minha
servisse para fazer essa denncia. Para conscientizar alguns homens, pelo menos. Papai fala sempre de homens brilhantes que combateram esse tipo de violncia. Como
Bertrand Russel, por exemplo, uma pessoa admirvel, que morreu com quase 100 anos, l na Inglaterra, e at o fim lutou contra as armas nucleares. Vivia sendo preso.
Dizia que s a espcie humana se destri a si mesma. Que o lobo, o leo, qualquer tipo de animal, nunca ataca a prpria espcie. Ele era um Homem com letra maiscula!
Pena que existam to poucos, como Gandhi, na ndia, o maior de todos os pacifistas, meu dolo. Como aquele grande escritor francs, o Albert Camus, que papai adora,
e transcrevo aqui, agora, uma frase maravilhosa dele sobre Hiroshima e Nagasaki, a cidade vizinha que dias depois sofreu o mesmo tipo de bombardeiro atmico, embora
com menos intensidade. Ele diz assim:
  "A civilizao mecnica acaba de chegar a seu ltimo grau de selvageria. Num futuro mais ou menos prximo, ser necessrio escolher entre o suicdio coletivo e
a utilizao inteligente das conquistas cientficas". Viu que coisa proftica?

  (p. 45)

  Era um homem notvel. Ganhou o prmio nobel de literatura aos 44 anos. Foi um brilhante jornalista, cuja pena esteve sempre na defesa da liberdade, da justia,
e da esperana para todos os homens. Morreu tragicamente ao 47 anos de idade, num desastre de automvel, tendo uma passagem de trem no bolso. Ele disse, tambm,
num de seus melhores livros, "A Peste":
  "O que se aprende no meio dos flagelos: que h nos homens mais coisas a se admirar do que coisas a desprezar". So homens assim que podem salvar o mundo. Mas eu
quero dar alguma coisa de mim nesta luta insana. Quero provar, pela minha existncia, que logo ser truncada, miseravelmente, por causa da bomba, que no podemos
continuar fazendo de conta que isso no existe. Eu existo, no sou Anne Frank, mas existo. Estou morrendo como ela tambm morreu, pela estupidez dos homens.  meu
deus! - o que resta para admirar, como diz Camus? Talvez a luta de homens decentes nos Tribunais, defendendo os inocentes. A luta de homens decentes nos plpitos
e nos palanques, defendendo a Liberdade e a Justia para todos os homens. A luta de homens decentes, trabalhando para uma vida melhor entre os homens. Os que ensinam
e pregam a paz, consolam os humildes. Os que adotam crianas ou cuidam de orfanatos e asilos... mas afora isso, meu deus! Tanta ganncia, tanta infmia, tanta violncia!
Em nome de qu? De um pseudo-progresso, da avidez do dinheiro, da posse de um ttulo, de um cargo, do Poder?

  (p. 46)

  No meio do inverno eu aprendi enfim que havia em mim um vero invencvel. De novo, Camus. Veja, Isamu, que coisa linda ele escreveu! Eu estou no meio do inverno,
mas no vou me entregar, juro! Vou ter em mim esse vero invencvel, porque posso ser um smbolo nessa luta toda contra as usinas atmicas, contra a violncia que
domina o mundo. Li outro dia nos jornais que cresce a venda de armas de fogo, de estiletes, coletes  prova de balas, sem falar nas grades em volta das casas, dos
vigias armados. Voc dir:  por causa da violncia! E se todo o mundo andar armado, Isamu? O que acontecer? Algum esbarra no outro, o outro saca: fogo!

  (p. 47)

  Onde nos levar tanta violncia? At as crianas so regadas diariamente com filmes de violncia. At nos desenhos animados ela existe, e se reflete depois, como
diz irm Alcia, na prpria escola. Saem brigas horrveis, as crianas tentando imitar os heris de quadrinhos ou da T.V. Se no fossem separadas, poderiam se machucar
seriamente... isso sem falar em dirigentes sdicos, como aquele Khomeini, que arma crianas desde os 10 anos de idade e as manda morrer em pseudo-"guerras santas".
Isso  simplesmente animalesco!
  Akio diz que no Japo as crianas so criadas segundo o Amaeru, que significa "ser mimado". Mistura de afeto/carinho/gentileza.

  (p. 48)

  Sempre ao lado da famlia, carregadas, inclusive, de encontro ao corpo, envoltas naquela faixa, o obi, que d voltas em torno da me e da criana, formando um
ser nico. As crianas crescem consciente de que vo trabalhar e viver em grupo, nunca sozinhas, respeitando a unidade desse mesmo grupo. Aqui em casa, fomos criadas
assim, eu e minhas irms, segundo o Amaeru. Sempre perto de nossos pais, conversando e participando, com muita delicadeza e gentileza. Papai, nunca gritou ou bateu
em ns. Nunca dirigiu  mame uma palavra spera. Ele  um homem gentil. No precisa gritar para mostrar autoridade. Quando ele quer ser obedecido, sabe nos convencer.
Sua autoridade vem da fala suave, da convico com que nos fala. Muita gente inveja mame. Outro dia um amiga lhe disse:
  -- Tambm, com um marido desses, quem no  feliz?
  Sou uma nissei, nasci aqui no Brasil, filha de pai japons. Os japoneses so uma raa admirvel.  o segundo pas do mundo em tecnologia, como conta papai. Ele
diz isso, mas se sente muito brasileiro, claro, ele  at naturalizado. Mas admira muito a terra dos seus ancestrais. Outra coisa que gosto dos pases do Oriente
 que eles respeitam muito os velhos, sabe, Isamu? Os velhos so o repositrio de toda a sabedoria, so respeitados e amados. Os ocidentais desprezam os velhos.
Os velhos no conseguem empregos, amigos, diverso. So ridiculaizados em programas de T.V., como pessoas surdas, idiotas, desinteressantes.

  (p. 49)

  Isso tudo  mentira! H quem j nasa surdo. Surdo no  caracterstica da velhice. Mame, mesmo,  surda de um ouvido e  supernova. Os velhos gostam de contar
histrias. Mame sempre diz "que eles so a memria viva de um tempo que sem eles ficaria perdido". Adoro conversar com os mais velhos. Madre Alicia, por exemplo,
 legal, conta histrias lindas. Adoraria ter o meu av Isamu, contando histrias do velho Japo, isso antes da bomba. Tenho meus avs brasileiros, pais de mame,
a Clara e o Joo. Eles So timos! Contam histrias e so respeitados por toda a famlia. Graas a deus no temos velhos em asilos, em nossa famlia. Mas quantos
esto assim, rejeitados e infelizes?
  Mame visita muito o asilo aqui da cidade. Eu ia sempre com ela. Levvamos doces, roupas, mas principalmente nosso carinho. Tinha uma velhinha, quando me via,
falava?
  -- L vem a japonesinha que gosta de conversar...
  Agora no tenho ido mais por causa da minha doena. Mas, assim que melhorar, eu voltarei. Ser que vou melhorar, meu dirio? Sempre existe uma esperana, no 
mesmo? Quem foi que disse que ela  a ltma que morre? S espero no morrer antes de minha esperana!

  (p. 50)

  V

  Se fez noite

  Madre Alcia sorri para Hanako.
  -- Tenho uma novidade para voc.
  -- Qual, irm?
  -- Voc no quer ser escritora? Pois vem uma escritora aqui no colgio, o ms que vem, falar com os alunos. Ela  de So Paulo, autora daqueles livros que vocs
leram...
  -- Vem mesmo? A Ariadne?
  -- J escreveu confirmando, Voc vai conhecer uma escritora de perto.
  -- Que boa notcia, irm Alcia.
  -- Como vo suas pernas?
  -- Pior, irm, no consigo mais andar. Coitada da mame que tem de me carregar por toda a parte.
  -- Tenha f, minmha filha, reze muito.
  -- No tem jeito, irm. Quem sabe ainda descobrem a cura para minha doena...
  -- Claro que descobrem, querida... - disfara a irm comovida. - Voc  uma menina corajosa, no ?

  (p. 51)

  -- Eu no tenho medo, no. S queria que o Akio no ficasse to triste.
  -- Pois vamos esquecer a tristeza agora. o ms que vem vai ter uma festa para Ariadne, e voc vai conversar com ela, contar os seus planos.... als voc escreve
um dirio, no ?
  -- U, quem contou?
  -- A Mieko, mas ela no fez por mal. Disse que voc j era escritora porque escrevia um dirio.
  -- Igualzinho ao Dirio de Anne Frank, irm. S que o meu se chama Isamu, que era o nome do meu av japons.
  -- No fique aborrecida por eu ter falado no seu dirio. E prepare-se para a visita da escritora. Garanto que ela vai gostar de conhecer uma colega.

  A mesa sobre o palco. Crian;as ao redor. Sentada, uma mulher de meia-idade, sorridente. De repente, algo atrai sua ateno. Ao seu lado, numa cadeira,  colocada
uma menina adolescente, que veio no colo da me. Uma professora apresenta:
  -- Ariadne, esta  Hanako. Quer ser escritora como voc. E j escreve um dirio...
  -- Muito prazer, Hanko. - A autora sorri para a garota, beija-a no rosto. A garota sorri tambm.
  -- J li todos os seus livros. Gosto muito de ler.  pena que s vezes me sinto fraca...
  -- Mas voc ir ficar boa logo, para ser escritora como eu. Que idade voc tem?
  -- Treza anos; fiz em agosto.

  (p. 52)

  -- Pois eu comecei a escrever aos nove. Continue sempre escrevendo, lendo bastante. Assim voc se transforma numa autora.
  -- Ah, quero ser tanto! Sabe, eu li o Dirio de Anne Frank; ela  to parecido comimgo. A gente  vtima da mesma guerra....
  A autora sobressalta:
  -- Como assim? Anne Frank viveu durante a Segunda Grande Guerra, isso faz quarenta anos...
  -- Meu pai vivia no Japo nesta poca...
  -- No entendo a relao...
  -- Meu pai morava em Horishima, quando jogaram a bomba atmica. Meus avs morreram, s ele se salvou. Mas foi vtima das radiaes atmicas, e isso passou para
mim. No viu que no ando mais, que vim no colo da mame? Tenho uma doea nos ossos, no sei quanto tempo vou viver...
  A outra, atnita. As lgrimas tentando saltas dos olhos. Segura-se, tenta sorrir. Nada faz sentido, deus! A coragem daquela garota, o tom suave da voz, a ceitao....
- Cad a revolta? E adiantaria alguma coisa? O que dizer?  a prpria garota quem responde:
  -- Tenho de ir, agora, estou muito fraca. Suo muito, s vezes tenho falta de ar. Mas foi to bom conhecer voc!
  Os olhares das duas se cruzam... o olhar de Hanako translcido/afogueado, na face plida e linda. Os dedos cheios de anis, frfeis como pistilos de flor... as
pernas encolhidas, atrofiadas... A me a toma no colo, ela se inclina e, beijando a face de Ariadne, diz:

  (p. 53)

  -- Eu tambm vou ser uma escritora como voc... se tiver tempo!
  O que foi que aconteceu nesses minutos mgicos de conversa? Ago mudou, certamente, por ali... Ariadne j no sorri como antes, aogo confrange/aperta seu corao.
Em torno dela, dezenas, centenas de crianas sadias e fortes, risonhas e barulhentas:
  -- Me d um autgrafo!
  Ela assina, assina, assina, como um autmato... Depois responde s perguntas de pais e professores, das prprias crianas; uma pergunta a respeito de um livro
seu que fala de um filho natural:
  -- Por que voc escreve histrias proibidas?
  -- Porque no existem histrias proibidas...
  Onde, onde est Hanako? Seria a histria dela uma histria proibida? Vontade de sair correndo, sentar-se na primeira mquina e escrever, gritar, denunciar... ao
tolo/vasto mundo aquela trajetria de criana:
  -- Eu tambm vou ser escritora como voc... se tiver tempo!
  O tempo de Hanako, a coragem do tempo... quanto, quando?
  -- Est pensando na menina? - Madre Alcia pousa a mo suave no seu ombro, depois da palestra, e conta em poucas palavras todo o drama familiar de Hanako.
  -- Vou escrever a histria dessa menina.
  -- Com que finalidade, Ariadne?
  -- A da denncia. A de pr o dedo na ferida, mostrar o absurdo de tudo isso. De como os inocentes pagam pelos culpados, geraes sem fim...

  (p. 55)

  -- E vai adiantar alguma coisa?
  -- Sempre adianta alguma coisa, irm. Se todos nos calarmos, seremos todos coniventes. E eu no posso calar. Hanako est na minha garganta,  preciso grit-la,
explodi-la, arranc-la de mim...
  -- Voc est nervosa, minha filha, se acalme - pede a irm.
  -- H 317 usinas nucleares em funcionamento no mundo e mais 200 em construo, irm. Mesmo com a desculpa de uso da energia nuclear para fins pacifistas, no d
para se acalmar... talvez nem voltar atrs, sabe? Mas, quem sabe, possamos exigir mais segurana, mais bom senso... sei l... talvez seja tarde demais para o Homem!

  Hanako se achega mais ao pai, a seu lado na cama:
  -- Akio, prometa uma coisa!
  -- O que quiser, flor.
  -- Prometa que no ficar triste... nunca.
  -- Eu no ficarei.
  -- Ah! Sua boca fala e seus olhos choram. Prometa de verdade, pai.
  -- Por que, tsubomi?
  -- Porque no quero ver Akio trsite, nunca. Acontea o que acontecer, entendeu? Porque eu amo essa sua alegria, essa sua bondade...
  -- No sei se ainda sou bom ou alegre. Tenho o corao apertado.

  (p. 56)

  -- Pois quero que continue alegre. Olhe, hoje eu conheci uma escritora l no colgio. Foi to gentil comigo.
  Disse para eu ler e escrever bastante para ser uma escritora como ela. Seu eu tiver tempo, lgico!
  -- Ainda h esperana, flor! Ningum sabe ao certo, eu no enganei voc.
  -- Claro, Akio, eu sei disso! Ento fiquei animada, sabe? Vou continuar lendo e escrevendo... me compra mais livros, pai?
  -- Que livros voc quer?
  -- Voc escolhe. Mas no quero s livros para a minha idade. Quero ler tudo... Queria ler um livro daquele autor que voc tanto gosta... o Camus. S conheo alguns
trechos do que ele escreveu:
  -- Isso  fcil: pego na biblioteca aqui de casa.
  -- Acharam a boneca que eu pedi?
  -- Sua me viu uma boneca japonesa numa loja...
  -- Queria uma boneca igual a mim, mestia.
  -- Isso  difcil, filha. No serve a ningyou?  bonita. Lembra a Yuriko, sua av.
  -- Serve sim. Voc traz pra mim, Akio?
  -- Por que voc quer tanto a boneca japonesa, filha?
  -- Segredo meu. Qualquer dia eu conto pra voc.
  -- Conte agora... gostaria tanto.
  -- Quer mesmo saber?
  -- Claro que eu quero! No confia mais no Akio?
  Hanako, muito sria, olha dentro dos olhos do pai: - Foi uma idia que tive outro dia. Que se algum dia eu no mais estiver por aqui, voc tem a boneca para ficar
no meu lugar.... e nunca esquecer de mim.
  Akio no responde. Abraa Hanako forte, os dois coraes pulsam no mesmo ritmo. L fora comea a chover, chuva forte de vero, como se quisesse lavar a terra de
todas as tristezas, de todas as dores. Uma grande enxurrada de luz e alegria...

  (p. 57)

  -- Tambm quero dar um presente para voc, tsubomi - diz o pai, depois de instantes de silncio.
  -- Que presente, papai?
  -- O que mais voc quer no mundo?
  -- Ah, papai, eu quero sarar, lgico!
  -- Ento, minha filha, a gente vai viajar, primeiro para So Paulo, tentar um novo tratamento l. Se precisar, a gente viaja para outro pas. Ouvi falar de novas
drogas que surtem muito efeito...
  -- S ns dois?
  -- S ns dois. Mame fica cuidando de Yoshiko e da Mieko.
  -- E quando a gente vai?
  -- O mais rpido possvel. J estou providenciando tudo. Ficamos hospedados na casa dos seus tios. Tem a Patrcia...
  Hanako, contente:
  -- Gosto muito da Patrcia. Vai ser bom. E no atrapalha os estudos, papai?
  -- Vou falar com madre Alcia, pedir uma licena para voc. Vai entender, s queria saber se voc est de acordo...
  -- Tudo que voc fizer, eu topo, papai, voc sabe.
  Abraa-a novamente. A chuva canta nas calhas, como num solo de msica.
  -- Akio?
  -- Que , tsubomi?

  (p. 58)

  -- Eu vou morrer?
  -- No sei filha, sinceramente, no sei. Tenho muita esperana de que voc possa viver...
  -- Quanto tempo?
  -- Tambm no sei, filha. Mas espero que muito tempo... Ainda que voc no possa andar, tenha de viver tomando medicamentos, mas esteja viva, isso  o que importa!
  -- Eles encontraram a Anne - diz Hanako.
  -- Quem  Anne?
  -- A Anne Frank, paizinho. Eles a encontraram e a levaram para o campo de concentrao. Ela morreu l.
  -- No pense em coisas
tristes, filha. Foi h tanto tempo...
  -- Mas poderia ser hoje, no poderia? - Hanako sorri, triste. - Quando eu estava falando com a Ariadne, no colgio, eu descobri, de repente, e disse isso pra ela,
que eu e a Anne ramos vtimas da mesma guerra...

  (p. 59)

  Akio olha profundamente a menina que tem  sua frente. Uma menina? Ou uma mulher? Quando haveria realmente haveria, a paz? - Da mesma guerra - repete, suspirando
fundo.
  -- Akio, olhe! - Hanako aponta com o dedo alguma coisa l fora...
  Akio segue com os olhos a direo indicada.
  -- Que foi, filha?
  -- Nasceu a rosa vermelha. Que linda! Colhe pra mim, papai...
  -- Voc quer mesmo que eu a colha para voc? Ela est to linda ali, no galho solta sob a chuva... jiyuu, livre!
  --  mesmo, Akio, deixa ela. Dura to pouco. Eu sou parecida com uma rosa tambm. Vou durar to pouco!

  (p. 60)

  -- No fique triste, minha filha, voc  uma akai bara, a rosa vermelha. No existe nada igual, tenha a certeza. Voc  nica! Por isso ter seu tempo de flor...
  Hanako passa os braos em torno do pescoo de Akio:
  -- Sabe que eu amo voc?
  -- Eu tambm a amo, muito... voc foi sempre a minha preferida, mas no conte para elas, hein? Fica sendo nosso segredo; no vou colher aquela rosa para voc,
mas em pensamento eu lhe dou esta rosa...
  -- Para qu - pergunta Hanako.
  A resposta, Akio murmura, baixinho:
  -- Bara o wasuenaide...
  Ela entende o que ele diz:
  -- NO SE ESQUEAM DA ROSA....

  (p. 61)

  Pensem nas crianas
  Mudas telepticas
  Pensem nas menidnas
  Cegas inexatas
  Pensem nas mulheres
  Rotas alteradas
  Pensem nas feridas
  Como rosas clidas
  Mas oh no se esqueam
  Da rosa da rosa
  Da rosa de Hiroshima
  A rosa hereditria
  A rosa radioativa
  Estpida invlida
  A rosa com cirrose
  A anti-rosa atmica
  Sem cor sem perfume
  Sem rosa sem nada
  (Vinicus de Morais, Rosa de Hiroshima. In: JOO CARLOS PECCI, Vinicius sem ponto final. So Paulo: Saraiva, 1994).
